Cárcere da emoção

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Era cedo. Um ritual repetido. Café da manhã sortido de opções de saúde invejável e inveja saudável. Comeu rápido, conversou pouco. Na união horizontal dos azuis, hoje, o que mais lhe interessava era o de cima. Voo marcado. O “plam” da porta. Estrada. Para o ninho dos pássaros de aço. O caminho todo dosando o sol nos olhos com as pálpebras. Desde Clint, olhos apertados ainda são charmosos.

8 horas. Diferença de fuso. Ciente de que um novo dia foi recebido e copiado para todos. Antes de responder parabenizando os envolvidos em prece organizacional e profana, ainda na cama, retrucou uma bela paisagem emoldurada com verde pastel onde lia-se – verificando com dois ícones azuis – bom dia! Revisou listas, pijama completo, vestiu pantufas. Fez a barba. Motivação vinda do único item seguido por um cifrão e números.

23 horas. Voo longo. Ele é um dos poucos passageiros que entende o quanto desbravar o azul é cansativo. Encontro marcado. Corredor e esteira. Mala pequena, não coube a angústia, achou melhor não trazer. Só algumas coisas pra vestir. You’re very welcome Mr. Slater. A batida do carimbo cutuca a ressaca.

Transfigurado quase nem se reconhecia entre um exercício e outro de ginástica facial. Esta língua não vai enrolar. No primeiro contato com a água do dia, a bochecha se encolhe e brota um sorriso reflexo autônomo. Parece tudo bem. Hoje lanço livro. É onde tudo deveria estar. Secar. O bordado incomoda um pouco. Joga a toalha, pequeno gancho ainda suporta. Lê-se Cury.

Vibrava a cada minuto. Uma nova mensagem agendando sessões no futuro “Surf Ranch”. A tormenta aumentava. Cada swell de azia que batia naquele estômago não valia o arrepio de mil tubos. Querem entender Kelly. Querem entender suas ondas. O Uber nem acreditava no passageiro, e também não acreditava na pontualidade agendada, sabia que o imprevisível era sal de um mar de intenções, cada um na sua. De fato, atrasaram-se.

Som de mensagem. Todo mundo reconhece. Quase um gatilho emocional. Dizia do desencontro de tempos. Perguntou se seria possível pensarem uma nova realidade onde se encontrariam. Augusto sugeriu que se encontrassem onde estava. Tinha acabado de chegar e olhava Amado nos olhos. Compartilhavam o silêncio confortável dos que se conhecem há vidas. Ao conhecer alguém como Amado dá pra saber cada minuto pode valer uma vida. O cavalo abaixou a cabeça angulando. Meio relincho. Consentiu.

O unodecacampeão, desde o 10º título sabia que era só questão de semântica. Pisou o terra do estábulo sem cerimônias e a sombra dilatou o negro da pupila sobre a íris clara. 2015. Se encontrariam no lançamento de “Superando o cárcere da emoção”. Gerir emoções, um negócio que estava começando. Com toda a segurança de quem ainda se questiona. Uma pergunta parou a sessão de equoterapia: Mr. Cury, o senhor é verdadeiramente capaz de gerir suas emoções?

[Gosto de imaginar que aconteceu assim.]

Somos? Somos muito mais que aquários de beta em salas com ar condicionado – pegou essa? con-di-cio-na-do. O ar. Existe condição pra isso? – O que vai dentro de nós é o mar todo. Escalas são físicas. Figuras, linguagem. E nossa busca pelo auto conhecimento só acontecesse se tivermos a senha do wi-fi. Do contrário, o navegador nem começa.

Confesso que pensei um pouco para lembrar que o nome era esse. browser é mais fácil. E procurando o significado do verbo to browse, deu um certo alívio saber que são sinônimos de look through, walk around… que tá mais para gente do que pro machine learning.

Depois dos títulos, o corpo de texto do Kelly me parece mais robusto. Manter o equilíbrio ante o indominável. Honesto. Para digerir emoções em pequenas caixinhas de comida chinesa. Entre todos os livros de Augusto Cury, prefiro chá. Não é ficção, é para quem tem estômago. Minhas emoções quero cruas. Quero decidir como lidar com elas. Acho que somos humanos o bastante pra isso. Curioso, fui buscar “como lidar com…” logo o mecanismo autocompletou “…pessoas”. Como lidar com pessoas. Eu devia saber, ou pelo menos valeria buscar. Quem sabe sem wi-fi? Sobre como evoluir, é bom lembrar, nas primeiras vezes que tivemos de lidar com a digestão de coisas cruas, inventamos o fogo.

P.S.: Ainda não decidi qual livro comprar

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