A_bsurda entrevista Quico Soares, professor e criativo

Quico Discurso

  1. Artista plástico, professor universitário, publicitário, chef, criador de cerveja artesanal (bendita Ipa na Xulipa)… ufa. Como é ter multitalentos? E em qual praia, você se sente mais à vontade?

 Pergunta boa, não muito fácil de responder. Já me peguei várias vezes fazendo esta mesma pergunta e nem sei se tenho respostas. Tudo foi acontecendo meio que naturalmente sem planejar. Quando criança eu era muito bom aluno e péssimo jogador de futebol, onde acabei virando goleiro porque ninguém queria a posição. Gostava de desenhar, pintar, assistir TV, cinema e ler bastante gibi, ou seja, já era quase publicitário e não sabia. Desde cedo jurava que seria médico e como não entrei na faculdade resolvi até por falta de opção cursar PP – isto em 1981 com 18 anos. Trabalhei em quase todas as áreas em PP: jornal, rádio, tv, departamento de marketing, produtora de audiovisual e agências – onde fui dono de quatro (Troop, Quiu, Três2zoom e Banda). Em 2000 virei professor sem nunca ter pensado nisso – estou, portanto há 18 anos. Quando fiz 50 (faço 55 este ano) resolvi me dar presente o curso na faculdade de gastronomia. Lá fui eu de novo. Na sequência emendei uma pós em gastronomia brasileira e claro: virei professor também: na pós, faculdade e escola de gastronomia. A cerveja IPA na Xulipa foi minha tese de pós (apesar de sempre estudar, apreciar e já fazer cerveja). Eu tinha que usar um ingrediente brasileiro e local, dai a ideia da rapadura na cerveja IPA que gosto bastante. Deu bastante certo e hoje já penso em produzir em pequena escala. O que acontece então é uma conjunção de fatores. Sucesso? É o casamento da oportunidade com a competência. Ser professor é minha grande paixão, e nela agrego todas as outras vivências em arte, PP e gastronomia.Em sala de aula e na cozinha me sinto mais a vontade – são minhas praias.

  1. As suas referências criativas são sempre as mesmas ou mudam conforme a área em que você atua? Resumindo, quais são as suas maiores influências na hora de criar?

 Criar é um grande processo químico que a gente realiza com bastante esforço. Inspiração é prazo. O fato de ser desde pequeno artista plástico me facilitou, pois me deu à liberdade necessária para voar sem limites. Aquele papo da girafa: pés no chão e cabeça nas nuvens. Quando assisti no começo dos anos 1980 o vt do primeiro soutien do Olivetto tive certeza que era aquele tipo de pegada criativa que eu gostava. E também não tem como citar somente algumas referências, pois elas mudam rapidamente e a busca é intensa e sem fim. Em propaganda (direção de arte) quando trabalhei na WGA o Newton e o Wagner me fizeram mudar totalmente os conceitos que tinha até então. O Newton pela inteligência e qualidade e o Wagnão pela disruptura. Em artes plásticas quando descobri Basquiat em 1995 pela primeira vez me deu literalmente um estalo. Minha arte mudou radicalmente.Enquanto professor a gente acaba pegando um pedacinho de cada colega e faz um mashup novo todo dia. Na gastronomia além dos ótimos professores que tive, gosto muito do Chef Atala – por causa de sua história errante e quixotesca e paixão pela gastronomia brasileira. Hoje prefiro comer no Mocotó do Chef Rodrigo Oliveira e no Casa do Porco do Jefferson Rueda e tomar cerveja Californication na Point SP 330 aqui na terrinha mesmo.

Anúncio - BandaAnúncio criado para Agência Banda. Quico era um dos sócios.
  1. Para ser mais criativo é preciso fazer o quê? Existe uma receita? De onde você tira suas ideias? Utiliza um mantra? Uma técnica? Um método maluco? Revele seus segredos, todos eles, por favor.

 Sempre me perguntam por isso. Não tem resposta, tem esforço, muuuuito esforço. Claro que não sai do nada. Como já citei acima sempre gostei de estudar, ler, pintar, assistir tv, cinema e conversar bastante com pessoas de todo tipo e claro ter olhos e ouvidos apurados. O melhor que a gente pode fazer para ter sucesso na vida profissional é investir em cultura pessoal. Ser um grande caçador de referências. Já comprei livro por $700 (Basquiat) e cerveja por $120 e não me arrependo. Quando preciso criar algo eu foco bastante naquele assunto e penso nele por durante muito tempo. Dias até. Processo químico desencadeado. Já acordei de madrugada com a ideia pronta. Tinha mania de anotar e ler no outro dia – quase uma psicografia – quando entendia a letra. Eu tenho uma biblioteca gigante com todo tipo de assunto e estou sempre consultando e atualizando. Claro tem o mundo virtual que a gente também navega, mas na leitura a gente mergulha. Tá tudo ai ao redor é só ficar atento: Terça-feira, cinco da tarde, centrão de Ribeirão, um puta calor e eu em frente da sorveteria do Jô esperando o sinal abrir. Ao meu lado duas moças provavelmente saindo do serviço estavam conversando: Minha patroa fala “poblema”  e meu patrão “pobrema”. Você sabe a diferença? Claro: “poblema” é quando é com você e “pobrema” é quando é com o outro. Pronto: criar é isso.

  1. Defina arte e inovação. Quais são as semelhanças e diferenças?

 E pra definir arte então como que fazemos? Arte é tudo e tudo e arte, ou arte é nada e nada é arte? Todos os movimentos artísticos desde a pintura rupestre são rupturas dos movimentos anteriores. Monet rompe com o figurativismo solta o traço e cria o impressionismo. Picasso na ânsia de sair da bidimensionalidade ajuda a criar o cubismo. Duchamp retira objetos do cotidiano e confere a eles status de obra de arte. Warhol experiente marqueteiro e ilustrador cria a pop art. Basquiat leva o muro pras galerias de arte. Jobs pega várias aparelhos e coloca todos juntos num telefone celular e cria o smartphone. São todos atos de inovação, um sucedendo o outro. Quando peguei emprestado uma Mavica (uma das primeiras câmeras digitais da Sony que gravava em disquete) e fiz algumas fotos fiquei encantado quase não acreditando que aquilo fosse possível. Olivetto fala que antigamente tínhamos somente um limão e fazíamos uma puta limonada. Hoje temos os mais modernos equipamentos e não temos mais o limão. Arte e inovação é quase como Yin e Yang: idênticos, complementares, opostos, se encaixam perfeitamente e trazem dentro de si a raiz do outro.

 Obra Quico

Quico Soares - obras1Obras de Quico Soares – Exposição no Centro Cultural Palace em 2014
  1. Qual a coisa mais inovadora que você já fez até hoje? É possível hierarquizar?

 Recentemente foi produzir a cerveja IPA na Xulipa. Após dois anos de estudos e buscas descobri que não existia receita para essa ideia. Daí o esforço e constante busca com erros e acertos para achar a resposta – que só saiu aos 49 do segundo tempo. O resultado foi compensador e para mim a sensação de inovação está presente até hoje comigo. Obs: O nome saiu também nos últimos momentos: o famoso bordão do Osmar Santos me entregou o nome de bandeja: IPA na Xulipa e Pimba na geladinha. Hierarquizar no sentido de envolvimento, resiliência, disciplina e planejamento sim. Sem ela não teria saído.

Ipa XulipaQuico com Bia Amorim
  1. Ah, e os novos projetos? O que vem por aí?

Depois da pós todos me perguntam isso também.
A ideia era tirar um ano sabático, mas já vi que não vai rolar.
Vou fabricar em pequena escala a IPA na Xulipa, escrever um livro de gastronomia, talvez uma viagem pro exterior e talvez aprender um instrumento. E voltar a pintar com frequência. 
E claro: fazer uma Stout agora (a Bom Brew).

  1. Se a sua vida fosse uma comida, qual seria? E se fosse um filme, qual seria o nome? Por quê?

A comida seria uma deliciosa moqueca baiana. Iguaria que junta à técnica portuguesa europeia do refogado, o peixe do índio nativo e o leite de coco e dendê dos escravos africanos. Nossa pura identidade e inventividade. O filme chamaria “A reinvenção”, pois é o que acredito que faço sempre e vou continuar fazendo. É meu motor.

     8.   Qual é a sua visão sobre inteligência artificial e criatividade? As máquinas conseguirão superar a humanidade?

Tenho lido alguns artigos a respeito. A AI taí, não tem volta, está ao nosso redor e talvez nem percebemos tanto. Questão de tempo toma conta, mas não domina. Máquina não cria sozinha – precisa ser estimulada – hoje. Amanhã… Warhol dizia que no futuro seremos famosos por 15 minutos. Hoje acho que seremos famosos por 15 Mb. Li estes dias uma frase que gostei bastante: cérebro não gosta muito de pensar, gosta de agilizar. Talvez seja uma resposta, pois até já terceirizamos nossa memória. A vida não tem control Z, portanto para cada game over sempre tem um play again.

2013. Mix on woodMix on the Wod 2013 – Obra de Quico Soares
  1. Imagine: se você fosse Deus, o que criaria?

 Criaria a seguinte frase: pegaram Jesus pra Cristo.

      9 ½. Desafio criativo: Faça uma frase juntando ‘feijoada’, ‘tintas’ e uma terceira palavra à sua escolha, mas que comece com as letras ‘ab’.

 Abduzido após uma feijoada quando questionado costuma carregar nas tintas(Quem sabe uma manchete no extinto e sensacionalista jornal Notícias Populares)

 Muito obrigado, mestre!

 

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