Startups de Ribeirão Preto atraem investidores que buscam inovação

Ideias desenvolvidas em polos como Ribeirão Preto podem movimentar aportes iniciais de até R$ 3 milhões, segundo especialistas. Com regras e garantias próprias, negociação pode levar meses.

Benício José de Oliveira Filho atua há mais de 20 anos em uma empresa de soluções tecnológicas em contabilidade na Grande São Paulo, mas há oito encontrou nas startups um universo irreversível de oportunidades.

Mentor de empreendedorismo, ele já aplicou recursos em 30 iniciativas, das fintechs – que atuam com finanças e desafiam instituições bancárias – às inovações em e-commerce, além de ser um dos fundadores de uma empresa de investimentos focada em startups.

Para expandir seu portfolio, Oliveira Filho acompanha de perto quatro startups de Ribeirão Preto (SP), que não revela para não prejudicar as negociações. Ele e seus sócios estão dispostos a investir, em média, R$ 500 mil por selecionada, com a expectativa de incentivar ideias inovadoras e obter um retorno até dez vezes maior a partir de cinco anos.

“A gente vive um momento interessante no Brasil. O empreendedor percebeu que pode ser protagonista”, afirma.

Um dos 14 principais polos de inovação do país, segundo o Índice de Cidades Empreendedoras da Endeavor Brasil 2017, Ribeirão Preto é uma das dez cidades brasileiras com maior disponibilidade de recursos para aplicação em startups nas fases inicial e de expansão.

De soluções para o campo a tecnologias aplicáveis a educação, saúde, construção civil e comércio virtual, investimentos desse estágio podem chegar a R$ 3 milhões por negócio, segundo especialistas entrevistados pelo G1.

“O investimento não é pautado através dos royalties e dividendos que a startup pode prover. A grande vantagem do investimento, principalmente das startups early stage [de estágio inicial], é porque dali cinco, sete anos, é possível que o valor da startup seja multiplicado por dez pelo próprio mercado”, afirma Clayton Guimarães, líder de operações do Sevna Seed, aceleradora de Ribeirão.

clayton-startupClayton Guimarães, chefe de operações da aceleradora Sevna Seed, de Ribeirão Preto (Foto: Rodolfo Tiengo/G1)

Um dos aportes mais importantes na trajetória de uma startup, o recurso provém dos chamados investidores anjos, pessoas e organizações dispostas a acompanhar o crescimento do negócio e esperá-lo se converter em dividendos ou em um valor de mercado expandido.

Além do retorno financeiro, eles são motivados por demandas específicas de soluções muitas vezes não desenvolvidas dentro de grandes empresas, mas conduzidas de maneira mais enxuta nas startups.

“É uma possibilidade que a gente chama de corporate innovation [inovação corporativa], ou seja, levar a inovação a esse mundo corporativo sob a ótica do que as startups fazem.”

Negociação

Tamanha é a importância desse personagem que inspira a realização de eventos nos quais empreendedores expõem seus negócios, tais como o “Angel Day”, em Ribeirão Preto.

Após promover o seu pitch – apresentação objetiva sobre o negócio e o potencial de rendimento –, o empresário Eduardo Dotto Martuci, de 36 anos, despertou a atenção de alguns investidores. Com a Voice Commerce, ele promete facilitar a interação com o conteúdo de sites de e-commerce por meio de comandos de voz.

Com a ferramenta de acessibilidade, Martuci promete ampliar a inserção de deficientes visuais e de idosos entre os clientes de páginas de vendas pela internet.

“Os leitores de tela não conseguem ler as opções, numeração, tamanho de uma camiseta e também quando chega àquela parte de check-out, dos formulários, não conseguem ler as informações, é uma navegação muito complicada”, exemplifica.

A negociação com os investidores pode levar até três meses até que se concretize o aporte, segundo Martuci.

Mais do que convincente, é preciso “falar a mesma língua” dos interessados, ainda hoje habituados a modalidades tradicionais de investimentos.

“A gente trabalha com alguns formatos tradicionais para esses investidores. A gente fala de mercado, qual problema está resolvendo, qual é nossa solução, qual é nosso modelo de negócio, o que a gente, pensa, qual é o nosso cronograma de desenvolvimento. A abordagem é bem pragmática.”

Garantias e condições

Os meses que se passam entre o primeiro interesse e a assinatura do contrato não só colocam em pauta os interesses financeiros dos dois lados, como também as garantias previstas aos participantes da negociação.

As condições geralmente são flexíveis e variam de contrato para contrato, mas, via de regra, partem de um acordo de mútuo conversível. Em outras palavras, é converter no percentual de ações da empresa a proporção do investimento efetivado em relação ao valor de mercado da startup.

“O percentual negociado pelo investidor anjo ou pelo venture capital depende do evaluation da startup, da monta financeira do aporte, ou seja, do valor investido e do planejamento estratégico do negócio. Tudo isso é muito negociável”, afirma Alexandre Bonilha, advogado especialista em startups e mentor jurídico do Founder Institute, incubadora norte-americana com representações no Brasil.

Em muitos dos casos, segundo ele, o capital intelectual também tem peso em áreas como os setores financeiro e comercial e no desenvolvimento de programas. “Às vezes, o capital intelectual vale mais que o dinheiro investido.”

Essa participação também varia de acordo com o segmento em que a startup atua: geralmente até 10% para empresas do setor de biotecnologia e até 30% para empresas de tecnologia da informação, por exemplo.

“Hoje estou buscando um investimento de R$ 200 mil e estou disposto a abrir mão de 10% dessa empresa”, diz Martuci, da Voice Commerce.

Já o analista de sistemas Rafael Valerini, de 31 anos, planeja conceder de 8% a 12% das ações de sua startup, a Piloot, cuja solução é apresentar indicadores personalizados de e-commerce que facilitem a aplicação de estratégias de marketing e de redução de custos.

“O investidor pensa a longo prazo. Conforme o tamanho do mercado que a gente quer buscar, a gente vai pedir o investimento”, explica.

Os contratos também preveem condutas que devem ser seguidas pelos participantes, como a de manter a confidencialidade das informações referentes ao negócio e não fazer concorrência, segundo Bonilha.

A lei complementar 155/2016, da União, também traz garantias ao investidor anjo, como a sua desobrigação em responder, por exemplo, por eventuais dívidas trabalhistas. “Você não pode concorrer com seu sócio sob pena de concorrer em crime federal”, diz o advogado.

Embora os investimentos sejam de risco, também pode haver cláusulas que preveem a devolução dos recursos, geralmente em situações de desvio de finalidade das verbas, explica o mentor jurídico.

Segundo Clayton Guimarães, em meio a essa negociação, o know how das instituições envolvidas, sobretudo incubadoras e aceleradoras, ajuda a mitigar riscos.

“É muito mais fácil o empreendedor fazer os investimentos através dessa instituição do que fazer diretamente. No geral, dentro do Founder e do Sevna temos por volta de 82% de sucesso das startups em que investimos”, diz.

De olho em negócios voltados para inteligência de dados, recursos humanos e gestão de conteúdo, investidores como Benício Benício José de Oliveira Filho defendem que aplicar recursos em startups pede uma forma de pensar diferente da adotada nos negócios tradicionais.

“Quando você olha em negócios tradicionais, eles têm variáveis bem tangíveis. O investimento em startup acaba sendo bastante intangível, porque muitas vezes você acredita em um produto que não está no mercado de forma consistente.

Fonte: G1

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