Tá quente, não?

Já contei a vocês como eu amo a língua? Pois então, para quem estuda comunicação é como uma certa paixão pelo instrumento de trabalho, entende? Uma reação que vem do ofício. Certa vez, vi num documentário por aí João Bosco, aquele do ótimo álbum Galos de Briga de 1975, não o da dupla sertaneja, caso você queira pesquisar. O vi dizendo que o instrumento só devolve a dedicação que a gente dá para ele. Poesia tamanha na descrição desta dialética que existe entre o ”como você faz” e o “o que você faz”, não acha? Ah, nem te contei que o estudo desta relação também virou obsessão.

Quer um exemplo? Quando o sujeito diz que fez “um negócio da China”, é um bom negócio? Uma barganha? ou foi tapeado na transação? Bom, o fato é que precisamos rever isso. Entre as abas que abri na semana, uma delas contava a história de um sol – sim, um sol – feito na China. Perdoe, mas não dá para chamar o astro rei de bugiganga, certo? Pensei que fazer sóis só era possível em poesia. Pois aqui estamos nós vivendo este dia.

Calma, eu explico. Ou melhor, a ciência. Fundindo deutério e trítio, que são isótopos do hidrogênio, o resultado é uma quantidade considerável de energia e um átomo de hélio. Sim, para mim também doeu lembrar das aulas de química. Mas é bom saber que hélio é muito mais que aquele gás que faz a gente falar fino. A questão aqui é que, através deste processo, o reator de fusão nuclear alcançou 100.000.000 de graus Celsius e eu juro que não esqueci o dedo no zero ao digitar a temperatura. Compara só: o sol, também conhecido por ser o centro do nosso sistema de planetas, fundindo átomos de hidrogênio chega a 15 milhões de graus. Enquanto o EAST – este é o nome que o reator recebeu – chegou a uma temperatura 6,66 vezes maior. Com certeza, isso é coisa do… nosso intelecto quando tá afim de construir um mundo melhor.

Pausa. Lembra o nome do reator? Uma sigla, ok. Mas em que direção o sol nasce mesmo? Putz! Que bem pensado, não? Ao estudar a caligrafia chinesa, deu para entender claramente o quanto o modo com que se comunicam é avançado em relação ao nosso beabá. Mas isso fica para outra história 😉

Alô você, empreendedor! Deu para ver que a China é mais que uma caixinha, ~ desculpa Robson ~ , é uma caixinha de surpresa, ou seria de Pandora? Mais por que pôr na caixa, se eles estão mostrando o que tem fora dela? Você já imaginou que fundir átomos seria uma resposta para geração de energia limpa e em larga escala?

Radicais chineses para a composição do ideograma “Sol”. Lembra fissão ou fusão?

Parte 2

Meitnério. Já tinha ouvido falar? Nem eu. Seguindo nossa série química para falar de gigantes. Neste caso, o Brasil, o bismuto, o ferro e uma mulher. Viu só? Quando eu falei “gigantes”, você logo pensou que me referia a homens ou coisas masculinas como elementos químicos ou países. Já parou para pensar nisso? Dizemos “o” país e “a” sociedade, “a” comunidade. Será que o fato de usarmos artigos masculinos ou femininos influi no nosso modo de pensar? A cientista cognitiva Lera Boroditsky garante que sim e fez uma apresentação sobre seus estudos que vale seu play.

E foi aqui mesmo – no gigante pela própria natureza – que uma equipe de investigação alemã encontrou e iniciou seus estudos sobre fusão nuclear fundindo Bi-209 e Fe-58 num acelerador de partículas. Não, não vem mais um 7×1, fiquem tranquilos. Juro que tentei encontrar o placar nos números de massa, nos atômicos, mas não encontrei. O resultado desta fusão? Meitnério. Uau! Interessante. Mas de onde veio este nome?

Ainda não falei de uma gigante: Lise Meitner. Sabe o que é entrar na universidade em 1901? Ela sabe. E o que é virar doutorA, você sabe? No Brasil, em 2015, 10.141 mulheres souberam. Um detalhe, 54.491 quiseram receber o título de doutora nas mais variadas áreas do conhecimento. Ou seja, só 18,6% das candidatas concluiram seu doutorado. E se está difícil para elas, imagine para Lise. Uma senhora austríaca de 60 anos fugindo para a Suécia por causa dos delírios do Adolfinho. Europa né, meus amores.

Ufa! Ela chegou. Bora trabalhar? NãNão. Por que? Karl Siegbahn tinha preconceitinho e não acreditava em mulheres na ciência. Ah, me poupe Karl. Quem não poupa esforços é Lise que envia suas anotações para um colega colocá-las em prática em seu laboratório. E um ano depois publica na Nature a explicação para a fissão nuclear. Fofoca, é coisa de mulher ou de homem? Quer um bom boletim de alcova? Karl Siegbahn fazia parte da panelinha que escolhia os notáveis que receberiam o prêmio Nobel de Física. E, em 1944, quem recebe o prêmio? Quem? Quem? Otto Hahn, o colega de Lise.

Tive em deja vú imenso quando lembrei da frase atribuída a Einstein em que ele dizia que era mais fácil quebrar um átomo do que um preconceito. Anote que Lise Meitner era uma das 3 mulheres presentes na 7ª Conferência de Solvay, um TEDx da época. A homenagem nomeia o elemento químico mais pesado. Alguém duvida de uma gigante? E ainda uma última questão: quantas mulheres participaram da última conferência em que você esteve?

Parte 3

Fissão e fusão são, sem dúvida, uma questão nuclear. Na nossa série, temos falado sobre átomos. Do grego, aquilo que é indivisível. Mas, a questão é: por que ações como dividir e juntar são tão importantes para nós? Pensando em seu sentido mais extenso.

Se dividirmos uma enciclopédia – a avó da Wikipédia – em tomos fica mais fácil absorver o conhecimento? Ou talvez no learning by doing, juntando fatos, evidências e experiências aprendamos melhor?

Num contexto onde o pragmatismo tem ganhado cada vez mais espaço, aprender pela prática passou a ser a tônica de muitos mercados. Em contraponto, as escolas, especialmente a gestão pública, tem se preocupado com as teorias visitadas em sala de aula. Quando passei em frente ao colégio Anísio Teixeira não imaginei da influência deste nome. E numa sequência de pensamentos entre John Dewey, Rui Barbosa e Anísio Teixeira que remontam a construção do sistema público de ensino por aqui.

Você, a frente de uma sala de aula, dividiria seus alunos por suas capacidades e características de aprendizagem ou os juntaria por sua vontade de experienciar o que aprendem em teoria? Não precisa que a resposta seja completa, refletir sobre o assunto ou até mesmo começar a tecer uma opinião já está ótimo.

Enquanto canais como o Facebook se enchem de discussões sobre temas como “Escola sem partido” – Sim, eu sei que temos uma opinião sobre isso também – não nos atemos que o próprio Facebook também é uma ferramenta de marketing que nos permite dividir e juntar como nos convêm. Lembrando máximas napoleônicas, dividimos os públicos em nichos, diminuindo a complexidade das características, entendendo melhor os indivíduos, com o objetivo de ganharmos escala rapidamente.

O que nos leva a olhar de perto para outro tópico da questão dividir/juntar: Para dividir algo, é necessário um corte. Enquanto, para unir, é necessário um laço. A pergunta é: Em quanto tempo se faz um corte? E em quanto tempo se constrói um laço? Há um diferença, certo? Ok, guarde este dado com você, por enquanto.

Figurativamente, não é muito distante relacionar os indivíduos que compõem nossa sociedade a átomos, até por que ambos fazem parte da mesma coisa, da massa. Num belo livro de Mia Couto, eu e a Thais, amiga que me emprestou “Antes de nascer o mundo”, sublinhamos a mesma frase: “Saudade é como querer que a farinha volte a ser grão.” Levando em consideração o quanto já fomos processados como dados por aí, fica difícil voltar a nos ver como grãos in natura, entende?

O ponto é que ao ler estes estudos, vislumbrei que simbolizam seus tempos. Revivem suas histórias dentro da curiosidade e da busca de quem os fez. Afinal, que energia há em separar? Ou o que é esta energia que se sente ao unir? Estamos sob o mesmo sol, e as dúvidas de Lise Meitner talvez tenham sido sanadas ao descobrir que existe sim uma energia na separação do que parecia indivisível. Laços, entre nós humanos, não tenham sido construídos com velocidade suficiente para que ela entendesse aqueles que se alimentam destes nêutrons incidentes ou seriam incidentes neutros?

Sabe por quanto tempo o reator EAST produziu energia suficiente para alcançar 100.000.000 de graus Celsius? 10 segundos. Diga “um segundo” uma dezena de vezes para saber o tempo exato que se fez nesta planeta aproximadamente 6 vezes mais que o sol. Albert, caímos mais uma vez na relatividade do tempo. Espero que tenhamos tempo de estudar, na teoria ou na prática?

Em meio às nossas dúvidas e pesquisas, possamos formular o velocidade da construção de um laço consistente entre nós. Importa mesmo que seja chinês, austríaco, sueco, brasileiro? Estudos mostram que humanos importam. Que nossa relação, leitorxs, seja esta. Buscando o que é importante para nós. Prometo responder isso tudo na próxima vez que a conversa começar em: Tá quente, não?

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